Adicionado por em 2015-08-24

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c_cascavelpor Celso Machado

Tempos atrás, fazendo compras numa loja de materiais agropecuários, fiquei na dúvida se comprava um soro antiofídico. O vendedor, com a experiência de quem tinha muitos anos no ramo, me passou uma recomendação que recordo com frequência, por parecer inusitada e até mesmo contraditória: que eu deveria comprar esse produto por precaução, mas que ele desejava e acreditava que nunca fosse usado. Embora surpreso, achei bastante pertinente sua colocação e gostei dela. Mais do que isso, fiquei torcendo para que seu prognóstico fosse acertado. Felizmente, isso até agora está acontecendo e, como ele, torço para que sua previsão perdure.

Esse aprendizado tem me valido em diferentes etapas da minha vida. Nas minhas caminhadas pelo nosso sítio, sempre carrego uma vara. Não se trata de um cajado, nem de um apoio, mas de um instrumento que possibilite me defender caso encontre algum animal selvagem que não venha a ter afinidade comigo. Ou até mesmo um cachorro menos amigo que tenha escapulido do canil do vizinho. Carrego, por prudência, não com a expectativa de utilizá-la.

Quando alguém da minha família vai fazer uma viagem internacional, não tenho a menor dúvida em fazer um seguro saúde. Faço por precaução. Faço para não ser usado.

A caixa de primeiros socorros que todos temos em casa, no fundo, tem essa mesma finalidade.

Pode parecer um paradoxo, mas não deixa de ser interessante adquirir um produto ou serviço para não ser utilizado. E mais, ficar feliz com isso. Fico imaginando quanta coisa temos para não ser usada. Por exemplo, buzina de carro. Penso que é o tipo de instrumento para uma eventual emergência. Evitar um acidente, alertar outro motorista em caso de risco, não para perturbar quem está à frente, muito menos para chamar alguém sem sair do carro, seja filho, esposa, mãe ou amigo. Não é para ser utilizado a todo momento, incomodando meio mundo.

Nunca tive arma de fogo nem quero ter, mas penso que todo cidadão do bem que possui uma, daqueles que têm registro, a tenha para não usar, apenas para transmitir uma sensação de segurança. Ou intimidar meliantes.

Na minha lista, incluo ainda outros itens, estes, sim, totalmente desnecessários. Como velocidade acima de 130 km/hora nos meus carros. E som com alta potência.

Relógio da cor do cinto, mais de um terno, sapato de cromo alemão, suspensório, gravata borboleta, abotoadura, tequila, cigarro ou charuto. Cachaça de qualquer espécie (a não ser que seja para oferecer de presente para amigos que apreciem) e uma infinidade de outros produtos.

Mas voltando às coisas que podemos ter para nunca usar, penso que isso se encaixa perfeitamente em muitas palavras do nosso vocabulário. Nessas que são usadas para ofender, magoar ou injuriar, inseridas nas conversas infelizes que provocam ressentimentos, que distanciam e separam pessoas.

Melhor guardá-las como soro antiofídico. Para serem usadas em último caso. E olha lá porque soro pelo menos ajuda a curar. Maldades verbais, não: só aumentam e prolongam a dor.

PUBLICADO NO CORREIO DE UBERLÂNDIA EM 22 DE AGOSTO DE 2015.

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Categoria:

Mineiridades

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