Adicionado por em 2016-12-19

img_9212Por Celso Machado,

Dando continuidade a série das colunas engavetadas, compartilho esta, que escrevi há uns 4 anos.

Puto com classe

Interessante: certas pessoas tem uma importância significativa na minha vida não pelo que me ajudaram, apoiaram ou estimularam, mas pelo aborrecimento que me causaram.

Pela ironia e arrogância que suas colocações me provocaram. Pela extraordinária contribuição que me deram ao se mostrarem totalmente indiferentes aos motivos que me levaram a procurá-las. Pelo tratamento radicalmente oposto ao que lhes dedico. Por me considerarem como mais um quando tenho a mania de as considerar como únicas.

Que equívoco: ser tratado como igual é absolutamente normal e não deveria nos aborrecer. Basta apenas e tão somente tratar os outros assim, como iguais a todos. Se não devemos e não podemos esperar tratamento diferenciado, por que não retribuir da mesma maneira?

Provavelmente, o melhor tratamento para a indiferença seja…ser indiferente: água que cai na água não molha.

Ainda que não seja o prato predileto do meu cardápio: por mais paradoxal que seja, circunstâncias adversas acabam me levando a refletir sobre uma série de procedimentos que estou adotando, as concessões e negociações que ando fazendo. O preço embutido que muitas vezes não percebo.

O que o apreço não me mostra, o desprezo escancara.

Mesmo sendo desagradável, quão produtivo é vivenciar situações assim. Chego até a ficar preocupado porque tenho mais é que ser grato com aqueles que tanto me ajudam justamente por não me ajudarem. Pela contribuição que me propiciam quando me fazem perceber a minha insignificância diante da relevância de suas tarefas e atribuições.

Me levam a refletir se devo investir em mais projetos ou mais em menos projetos.

Se devo fazer pelo outro o que o outro tem que fazer por si mesmo. Se causas que considero relevantes e as quais me dedico com paixão, na verdade não são apenas desdobramentos de uma alma romântica e sonhadora.

Se mesmo não me considerando importante, não sou menos do que penso. Se o que faço e como faço diz muito pra mim, mas pode ser que tenha pouco significado para os outros.

Lugar de poeta não é no mundo do business.

Nesses momentos, prefiro não comentar em público porque tenho receio que se souberem que esse tipo de comportamento está sendo tão útil e produtivo para mim isso possa levá-los a mudar de atitude.

Além do mais, me propiciam um comportamento que tento aprender e praticar com mais frequência: o de administrar aborrecimentos com tranquilidade. Calado, absorto, saboreando as conseqüências que essas reflexões me oferecem.

Agradeço de coração aos que me “emputecem” pelo legítimo direito que me dão de ficar “puto”.

Aos que me deixam sem resposta quando sempre os atendi e retornei.

Só espero ficar puto com classe.

Isto não significa que nãos seja grato por quem me apóia, estimula e promove.

Pelo contrário, a esses reservo o melhor da minha gratidão. Por eles contínuo romântico, sonhador e …poeta.

Por eles continuo sendo o que sempre fui: eu mesmo!

Publicado originalmente no Jornal Correio de Uberlândia, em 17 de dezembro de 2016.

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