Adicionado por em 2015-06-08

por Ariane Bocamino

Bem próximo ao cemitério Bom Pastor, bairro Planalto, zona oeste de Uberlândia, mora o sambista Carlos Roberto Couto Lacerda, conhecido como o Kikideira. Filho de sambista, o compositor e músico cresceu nas rodas de samba da década de 1940 e 1950 na cidade. “Naquela época, não existia salão, o samba acontecia nas residências mesmo, no fundo do quintal da casa da gente. A gente pegava bambu, pregava um em cada canto do quintal e cobria com lona; e ali acontecia o samba,” afirmou o Kikideira.

Na companhia de Hafez Chacur, Kikideira foi um dos fundadores da escola de samba Acadêmicos do Samba, em 1981, e foi responsável pelos primeiros enredos da escola. “Um dia, eu estava tomando um chope com o Hafez Chacur, que é turco, mas é um turco com sangue negreiro (risos). Ele falou que queria fundar uma escola de samba. Ele perguntou se eu o ajudaria e, aí, a gente começou”, afirmou o compositor. Kiko, como também é chamado, desfilou pela Acadêmicos do Samba até 1986.

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Kikideira foi um dos fundadores da escola de samba Acadêmicos do Samba, em 1981 (Foto: Cleiton Borges)

Com o samba sempre presente, Kikideira, após ter passado pelo Grupo Flor do Samba, consagrado na cidade na década de 1990, o músico seguiu carreira solo. Seu mais recente trabalho foi o CD “Sapateando em Ré Menor” com 12 canções de autoria própria. Além deste trabalho com letras que remetem à origem do samba, do morro, da resistência, Kiko frequenta, fielment,e todos os sábados o Bar do Goiaba, no bairro Aparecida, e ali o pessoal da Velha Guarda se reúne para curtir um samba no pé com cavaco, cuíca e tamborim.

Quando o assunto é o samba atualmente, faz algumas críticas: “Modernizaram demais o samba, instrumento elétrico, muito microfone e não é nada disso. Não fica natural. O gostoso do samba é a simplicidade,” disse Kiko.

Visitas ao Rio de Janeiro aproximam o músico das Escolas de Samba profissionais

O Rio de Janeiro é considerado o berço do samba e, todo dia 2 de dezembro (dia nacional do samba), Kikideira vai ao Rio de Janeiro celebrar a data próximo de outros sambistas como os da Velha Guarda da Portela.

“O Antônio Carlos Sacco, meu amigo de muito tempo, tem familiares na Vila Isabel, no Império Serrano, e a gente fica hospedado lá com esse pessoal. É muito bom. A gente cruza com a Velha Guarda da Portela e se sente muito honrado. Porque, apesar do amor pelo samba dos “nego velho” de lá ser o mesmo do nosso aqui, a estrutura é muito diferente,” afirmou o músico.

Kiko ainda traça uma comparação entre as escolas de samba profissionais e a situação das escolas da cidade atualmente. “É complicado olhar as escolas de samba de Uberlândia hoje, porque se tem pouca infraestrutura, pouco apoio. Às vezes, se sai um recurso, é 15, 20 dias antes do Carnaval, aí, é difícil, porque, para o desfile, a escola precisa de tempo e planejamento,” afirmou Kikideira.

Envelhecendo no samba

Mais de 50 anos de samba trouxe experiência e muitas memórias para o músico Kikideira, mas, segundo ele, a juventude, atualmente, não respeita este conhecimento, a origem do samba nem o próprio sambista. “O jovem teria que entender que, apesar de a gente não ter mais aquele vigor, a gente tem uma caixa de segredo que é a mente. Então, o ideal seria unir o vigor da juventude com a nossa sabedoria. Mas hoje está difícil. Por exemplo, para tocar um instrumento no samba não é força, é jeito. E isso eles podiam aprender com a gente,” disse Kiko.

Muitas vezes comparado a Grande Otelo por sua graça e talento, Kikideira procura manter as características do samba que aprendeu com sua família. “As pessoas falam que eu pareço com o Grande Otelo, perguntam se eu tenho parentesco com ele, mas não tenho. É que eu sou meio palhaço, meio sarrista, procuro estar sempre de bem com essa vida. Então, para mim, é uma honra esse paralelo,” disse o sambista.

PUBLICADO NO CORREIO DE UBERLÂNDIA EM 6 DE JUNHO DE 2015.

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