Adicionado por em 2016-11-08

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Por Celso Machado,

brandingTem dias que não é fácil escrever. Selecionar um tema dentre tantos que podemos abordar, quando um insiste teimosamente em não sair da cabeça. E falar sobre ele, do qual já tratamos há duas semanas, com toda certeza, vai ser repetitivo. Para quem não leu ou não está fazendo associação, a morte que mencionei na coluna “crônica de uma morte anunciada” era a do CORREIO de Uberlândia.

Outro motivo para buscar um assunto diferente é porque esse incomoda, aborrece e entristece todo mundo que tem um pingo de sensibilidade e cidadania.

Então vamos tratar sobre rotina. Como ela interfere em nossas vidas. De como nos torna dependentes. É ela que nos faz repetir os mesmos trajetos diariamente, seja a caminho do trabalho, das atividades, do lazer. Que estabelece em nosso sono uma espécie de relógio, acordando sempre no mesmo horário. Determina quando tomamos banho, fazemos nossas refeições, assistimos ou lemos nossas revistas e telejornais.

Igualmente é a rotina que faz com que assistamos os mesmos programas, habituemos a ler determinados cronistas. Até mesmo nas questões espirituais é por ela que vamos a determinados cultos ou missas. Religiosamente. Essa programação que estabelece muito do que fazemos, onde fazemos e com quem fazemos. Que nos leva as nossas atividades físicas. Aos nossos encontros com amigos e colegas. A escolher os mesmos programas, a mesma marca de cerveja, os mesmos bares, restaurantes, salão de beleza, padaria, posto de gasolina e muito mais.

Nem toda rotina é boa. A de torcer para o Vasco, por exemplo, não é lá essas coisas. Como também levar algumas broncas da pessoa querida assiduamente. Mas é a rotina que nos guia, às vezes, até mais do que nós mesmos. Que nos permite levantar a noite em nossas casas e, mesmo na escuridão total, nos levar ao banheiro para eventuais necessidades. Principalmente quando o consumo de líquido foi elevado durante o dia.

Ela é tão poderosa e nem sempre percebemos isso. Me lembro, há muitos anos, um fato que me sensibilizou quando ainda estava implantando a Paranaíba FM em nossa cidade. Estava dentro de um táxi em São Paulo e o motorista falava comigo sobre a morte ocorrida um dia antes de Vicente Leporace, um radialista extraordinário que apresentara durante 16 anos “O Trabuco”. Era um informativo matinal em que comentava as principais notícias dos jornais paulistanos. Algo comum atualmente, mas inovador naquela época lá pelos anos 60/70, em que a maioria dos programas jornalísticos se limitava a informar, não a opinar.

Pois bem, disse-me o tal motorista que ele estava tão habituado a ouvir diariamente Leporace durante esses 16 anos que, no dia da sua morte, como o programa não foi ao ar, ele não deu conta de trabalhar. Ficou em casa, desorientado pela perda da referência de todas as suas manhãs. E que estava tendo a maior dificuldade em voltar a rotina do trabalho, sem a companhia de quem fazia parte dessa rotina.

E por falar em rotina, mesmo sem querer falar em morte, esta semana, quando voltava da minha prática esportiva matinal diária, me dei conta de uma que não vai ser fácil acostumar. Todos os dias, por volta das 8 da manhã, quando estou vindo da academia, passando pela portaria cumprimento o porteiro que me traz o CORREIO. No meu caso, diferentemente do meu amigo motorista de táxi, essa rotina tem bem mais de 16 anos.

Leio as manchetes, algumas notícias, as colunas, colunistas e, muitas vezes, até a relação de óbitos. Vejo as ofertas dos tabloides e a programação de entretenimento. E por aí afora. Há mais de dez anos tenho esta coluna semanal que me permite o privilégio de “palpitar” sobre diferentes temas. Essa rotina é tão presente que já estou sentindo sua falta, antes mesmo dela acabar.

Publicado originalmente no jornal Correio de Uberlândia, em 5 de novembro de 2016.

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