Adicionado por em 2015-11-09

por Ariane Bocamino

O bairro Brasil, no setor central de Uberlândia, mescla residências e comércios de uma forma aparentemente tranquila. Entre os prédios novos e antigos, encontramos comerciantes que estão ali há mais de 30 anos e não trocam o ponto por outro lugar, mesmo que seja no hipercentro da cidade. Neste contexto, encontramos o comerciante Wanderlei Silva que tem uma loja de autopeças há 30 anos. Ele foi quem nos apresentou uma personagem muito popular por ali, engraçada e com uma risada inconfundível, Maria Júlia de Amorim.

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Maria Júlia de Amorim, a ‘Dona Júlia’, recolhe diariamente entre 3 e 4 sacos de latinhas para reciclar pelas ruas do bairro Brasil, onde fez muitos amigos. (Foto: Ariane Bocamino/Divulgação)

Mais conhecida como dona Júlia, a catadora recolhe latinhas dos comerciantes do bairro para vender e com isso ajudar na renda de sua família. Perguntamos a sua idade, mas ela afirmou não saber. “O que a gente sabe da dona Júlia é que ela nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e veio pra cá com a família porque o pai dela era agricultor”, afirmou Silva, que é amigo de dona Júlia.

Ainda um pouco desconfiada, dona Júlia foi, aos poucos, contando mais de sua história. “A gente veio do norte no pau-de-arara. Era um caminhão com um pano por cima assim, sabe?”, disse a catadora de latinhas. São recolhidos, em média, de 3 a 4 sacos grande cheios de material reciclável e lá vai a dona Júlia carregando tudo “na cacunda”, como ela própria diz.

Toda segunda e sexta-feira, ela sai do bairro Pampulha, na zona sul, onde reside, e vai para o bairro Brasil a pé, recolhe as latinhas, conversa com os amigos e retorna para casa com todo o material. “Eu não canso não, o que cansa é ficar em casa parada”, afirmou ela, que entre o recolhimento de uma latinha e outro, descansa para tomar um cafezinho oferecido pelos comerciantes, que também se divertem com o bom humor da personagem.

Café e cachimbo são dois hábitos

Não foi fácil conseguir algumas respostas de dona Júlia, uma senhorinha tão alegre, mas também tão tímida e fechada com desconhecidos. Dois temas nos ajudaram a deixá-la mais à vontade e com menos medo da equipe de reportagem: café e cachimbo, dois hábitos muito apreciados por ela.

Em alguns dos locais onde dona Júlia para e pega as latinhas, os comerciantes sempre oferecem um cafezinho e ela abre, então, um largo sorriso em agradecimento. Basta uma xícara para ela seguir em frente em busca de mais material reciclável. Outro hábito que ela tem, mas escondido dos comerciantes, é o cachimbo. É o momento de ela relaxar depois de ter recolhido todo o material. Ela se senta em uma esquina e fuma o seu cachimbo antes de retornar para casa.

Perguntamos do cachimbo, mas ela ficou com vergonha de falar. Depois de um tempo de prosa, o cinegrafista do programa “De bairro em bairro”, que também é fumante, a convenceu de fumar em sua presença e continuar por mais alguns minutos o nosso papo. Com o rosto castigado pelo tempo e pelo sol da época em que trabalhava na roça, dona Júlia segue em frente cuidando da sua família e do planeta.

PUBLICADO NO CORREIO DE UBERLÂNDIA EM 7 DE NOVEMBRO DE 2015.

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